26/10/2012

Rio Grande do Sul tem maior adesão a religiões afro no país

Os resultados do Censo Demográfico 2010, divulgados recentemente pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apontam a tendência da diversidade dos grupos religiosos em Porto Alegre. A população de católicos teve queda de 12% em relação ao Censo de 2000. Ao mesmo tempo, a população que se declarou Evangélica, Espírita ou sem Religião apresentou crescimento no mesmo período. Em razão da mudança de credo religioso no Brasil, no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre buscamos a análise do pesquisador e professor Ricardo Mariano, doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS.
 
Em entrevista concedida a comunicação do ObservaPoa, o professor Ricardo Mariano assegura que “não há nenhum estado brasileiro que tenha maior proporção de adeptos dos cultos afro-brasileiros do que no Rio Grande do Sul. Na Bahia, por exemplo, os adeptos dos cultos afro-brasileiros declaram-se católicos. Uma das razões para isso, é o sincretismo religioso forte, então para o Censo, o Rio Grande do Sul é o estado que a proporção de umbandistas e candomblecistas é maior no país”. A entrevista foi concedida em outubro deste ano. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
 
ObservaPOA: Porque a migração religiosa está aumentando rapidamente nos últimos anos?

Ricardo Mariano:
Essa migração é um fenômeno nacional, acontece desde meados do século passado nas regiões metropolitanas onde ocorre mais intensamente as mudanças religiosas e há perda constante e crescente de adeptos por parte da Igreja Católica. Essa pluralização religiosa nos últimos 60 anos é encabeçada sobretudo pelos pentecostais, que são os que mais crescem no Brasil e na América Latina, no caso brasileiro pelo Espiritismo Cardecista e até os anos 80 pela Umbanda e pelo Candomblé. O grupo dos “Sem Religião”, foi o que mais cresceu entre 1980 e 2000, assim como na última década, mas não tanto quanto vinha crescendo entre 80 e 91 e 91 e 2000. 
 
ObservaPOA O que se deve essa diminuição dos declarantes católicos e que vão migrando para as outras religiões?

Mariano: Tradicionalmente grande parte daqueles que se identificam como católicos no Brasil, não são praticantes da religião. São católicos nominais, se dizem católicos porque nasceram em famílias católicas, mas não freqüentam a igreja, desconhecem as doutrinas católicas e não seguem os preceitos morais do Catolicismo, como também estão expostos ao poder exercido pelas autoridades eclesiásticas. As pesquisas empíricas quantitativas seguidamente mostram que mais de 40% dos católicos no Brasil acreditam em reencarnação, que é uma crença de origem hindu, difundida pelos cardecistas que nada tem a ver com o cristianismo. Dessa forma, podemos observar o desconhecimento radical desses católicos em relação à religião que se declaram. Portanto esses indivíduos são mais vulneráveis à pregação de outros grupos religiosos.
 
ObservaPOA: Como você analisa a pluralidade religiosa em Porto Alegre?

Mariano: A pluralização religiosa de Porto Alegre, diferentemente do Brasil, não tem sido impulsionada pelo pentecostalismo, até porque os pentecostais são menos da metade da média nacional na capital. Nota-se o crescimento dos “Sem religião”, dos Espíritas, que tiveram um crescimento avassalador, assim como, da Umbanda e o Candomblé. Inclusive o Rio Grande do Sul é o estado brasileiro que tem maior proporção de adeptos dos cultos afro-brasileiros. Na Bahia, por exemplo, os adeptos dos cultos afro-brasileiros declaram-se católicos. Uma das razões para isso é o sincretismo religioso forte, então para o Censo, o Rio Grande do Sul é o estado que a proporção de umbandistas e candomblecistas é maior no país. O perfil social da cidade de Porto Alegre faz com que os pentecostais tenham maior dificuldade de inserção, por essa razão não conseguem alcançar o mesmo crescimento, na mesma proporção que a média nacional. Em contra partida, a capital é mais permeável ao avanço do grupo dos “Sem religião” e de outras minorias religiosas. 
 
ObservaPOA: Quais seriam as causas dessa dificuldade de crescimento dos pentecostais em Porto Alegre?

Mariano: Não há estudos que mostrem causas para esse crescimento pequeno dos pentecostais na capital. A hipótese mais provável é que este grupo religioso se instala e cresce nas regiões periféricas das cidades, onde a Igreja Católica e o Estado não atendem de forma satisfatória os mais pobres. Este tipo de grupo religioso chega ofertando soluções mágicas para problemas que a maior parte da sociedade possui, tanto em âmbito financeiro, como em âmbito religioso. Dessa forma, como Porto Alegre, de um modo geral, possui uma população com melhor poder aquisitivo não fica suscetível a esse tipo de culto ou crença religiosa, dificultando a ampliação e disseminação dos pentecostais. Outro fator que pode dificultar, é a colonização aqui na região sul do Brasil foi predominantemente de italianos e alemães, que historicamente são católicos, muitos padres, bispos, cardeais saíram daqui.

 


  

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